terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

É cada volta que este mundo dá...

Quantas são as irônicas voltas que este mundo dá! Há alguns anos houve movimentos sociais intensos contra a transposição do rio São Francisco. Muitos artistas e pessoas de destaque na mídia saíram em “defesa” do velho Chico. O intrigante é que muitos deles sequer sabiam exatamente o percurso do rio ou o beneficio que transposição iria gerar para a população do Sertão nordestino. Eram contra por que é moda contestar o governo “de plantão”; simplesmente para ser do contra. Como diria o folclórico Mocidade “Governo é pra sofrer”.


É claro que havia interesses políticos camuflados (sempre há). Também todos sabemos que uma obra desse porte no Brasil estaria, de alguma forma, contaminada por corrupção e superfaturamentos de toda sorte. Porém a finalidade principal dela, “matar a sede” do povo do semiárido, ficava um pouco esquecida.

Alguns anos se passaram, a obra ainda se “arrasta” e como se esperava foi palco de muitos atos de desvio de recursos públicos. E também teve que superar até a copa do mundo que levou parte do dinheiro para construir os estádios. Para milhões de brasileiros a derrota por 7 x 1 para os alemães foi um desastre. Mas sem dúvida a dor de quem vê o gado morrer de sede e fome é muito maior. É, mas a copa passou e todo mundo esqueceu, porém as vacas não ressuscitaram e a lavoura não brotou sem trabalho. O sertanejo continua enfrentando a seca; é a velha guerra para sobreviver. E ‘olha lá a transposição, se arrastando feito cobra pelo chão’...

Porém não bastava o vexame no mundial, nem ver a dor do sertanejo ao perder a safra para comover os “bacanas” da metrópole que pretendiam nos matar afogados, lembram? Era preciso sentir na pele. Pois é, senhoras e senhores preconceituosos e insensíveis, até a terra da garoa secou. Agora vocês sabem o que é o calor causticante e o que é não ter água para as necessidades básicas e ter que aproveitar a água da chuva que escorre pela calha do telhado. Hoje, alguns talvez saibam o que é orar pedindo chuva e até, quem sabe, uma lágrima de desespero tenha rolado por não saber quando a água chegará.

É, senhores e senhoras preconceituosos, não dá mais para afogar nordestinos por que “nós somos muitos” e o Cantareira secou. Agora vão recorrer à transposição e de um rio que tem nome de estado do Nordeste; São Paulo vai usar as águas do Paraíba. Tomara que os senhores e senhoras que pensavam ser superiores aos demais brasileiros por que moram em uma grande cidade desenvolvida e tecnológica, tenham aprendido que somos todos humanos, frágeis e efêmeros. A seca que nos distanciava, hoje nos une. Ah! Quando ocorrer apagões, não façam cerimônia, é só pedir que emprestaremos os nossos velhos candeeiros e um pouquinho de querosene. Estão meio empoeirados por que faz tempo que não os usamos. É, são as voltas que este mundo velho dá!




Publicação autorizada pelo autor da crônica.
Márcio Luís é professor licenciado em Letras.

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