domingo, 11 de janeiro de 2015

O Pesadelo

Lembro-me como se fosse hoje (Oh! Que frase antiga), eu tinha 10 anos de idade, era gordinho e tinha bochechas rosadas. O meu irmão era magro e amarelo. A minha mãe preocupada resolveu comprar um daqueles fortificantes milagrosos para ver se o moleque perdia aquele aspecto de defunto. O problema é que para que eu não ficasse tirando sarro da cara dele, tive que tomar o remédio também. Maldita hora!


Eu nunca havia conseguido dormir à tarde, achava perda de tempo, era adepto do Carpe Diem. Mas após ter engolido uma colherada daquele troço escuro, apaguei geral. Comecei a sonhar que o Brasil havia acabado e que em seu lugar fora criada a República Federativa do Absurdo. Eu estava em um grande plenário, havia muitos senhores e senhoras bem vestidos. Em uma bancada num plano mais alto, alguns homens de aparência muito séria usando roupas escuras. Eles estavam reunidos para formular as leis daquele país, eu parei para ouvir:

- Fica decretado que a partir desta data em todo o território da República Federativa do Absurdo sejam adotados os seguintes procedimentos:

Artigo 1º - Que todo médico receite remédios com letras ilegíveis rabiscadas nos braços do paciente e que os atestados para afastamento das atividades laborais sejam rabiscados nas testas, ficando o paciente sem tomar banho pelo período do afastamento para que a tinta não se apague.

Artigo 2º - Que os cargos de promotores e procuradores de justiça em todas as esferas sejam ocupados única e exclusivamente por indivíduos analfabetos, maiores de 80 anos e de preferência surdos.

Artigo 3º - Que não seja exigida a carteira de habilitação para motoristas, nem os diplomas para médicos e jornalistas; sendo bastante para o exercício de tais atividades o desejo e o talento individual. Tal não-exigência seja extensiva aos pilotos de avião e suas documentações peculiares.

Naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaão!!!!!!!

A minha mãe me socorreu:

-... Márcio, Márcio, acorda!

- Graças a Deus foi só um sonho, que diga, pesadelo.

- O que foi filho?

- Eu sonhei que só existia absurdo, o Brasil era o país do absurdo.

Nunca mais tomei aquele remédio. Aquilo não era um fortificante, era um entorpecente ou então uma máquina do tempo a me apresentar o futuro.





Publicação autorizada pelo autor da crônica.
Márcio Luís é professor licenciado em Letras.

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